Futuro da Água
Torneira enferrujada sem fluxo de água representando escassez hídrica
Tratamento de Água Potável24 de jul. de 202610 min de leitura

Salinidade da água: problemas no Nordeste brasileiro

Como o excesso de sais compromete o abastecimento e quais tecnologias de tratamento se aplicam à realidade semiárida.

No semiárido brasileiro, a água existe. O problema, muitas vezes, não é a sua ausência, mas a sua qualidade. Poços perfurados em comunidades rurais do Nordeste frequentemente captam água com concentrações elevadas de sais dissolvidos, tornando-a imprópria para consumo sem tratamento. A salinidade da água subterrânea nessa região é um fenômeno geológico com implicações diretas para a saúde pública, a agricultura e a viabilidade dos sistemas de abastecimento.

O Brasil tem mais de 1.400 dessalinizadores instalados no Nordeste pelo Programa Água Doce, do Ministério do Meio Ambiente. Ainda assim, milhões de pessoas convivem com água de qualidade comprometida, seja pelo sabor amargo, pelos efeitos gastrointestinais ou pela impossibilidade de usar a água em irrigação. Entender o que determina a salinidade, como ela é medida e quais tecnologias existem para removê-la é essencial para engenheiros, gestores municipais e operadores que atuam nessa realidade.

Este artigo aborda o tema de forma técnica e prática, cobrindo desde os fundamentos hidrogeológicos até os critérios operacionais dos principais processos de dessalinização utilizados no semiárido.

Salinidade e qualidade da água para consumo humano

A salinidade da água se refere à concentração total de sais minerais dissolvidos, expressa principalmente como Sólidos Dissolvidos Totais (SDT) em miligramas por litro (mg/L). Esses sais incluem cloretos, sulfatos, bicarbonatos, sódio, cálcio, magnésio e potássio, entre outros íons. Quando a água percola por rochas cristalinas, como o embasamento cristalino predominante no Nordeste, dissolve minerais ao longo do tempo e acumula esses compostos.

A Portaria GM/MS nº 888/2021, que regula os padrões de potabilidade no Brasil, estabelece o limite máximo de 1.000 mg/L de SDT para água potável. A Organização Mundial da Saúde (OMS) adota o mesmo valor como referência global. Águas com SDT entre 500 mg/L e 1.500 mg/L são classificadas como salobras; acima de 1.500 mg/L, como salinas; e acima de 35.000 mg/L, como água do mar. No semiárido nordestino, é comum encontrar poços com SDT entre 2.000 mg/L e 10.000 mg/L, valores que inviabilizam o consumo direto e o uso agrícola sem tratamento prévio.

A medição prática da salinidade no campo é feita por condutividade elétrica (CE), em microsiemens por centímetro (µS/cm). A relação empírica mais usada é SDT (mg/L) ≈ CE (µS/cm) × 0,64, o que permite estimativas rápidas com condutivímetros portáteis. Valores de CE acima de 1.500 µS/cm já indicam atenção; acima de 3.000 µS/cm, a água exige tratamento antes de qualquer uso humano.

Por que o Nordeste concentra o problema

A explicação para a alta salinidade da água subterrânea no Nordeste é geológica e climática ao mesmo tempo. O embasamento cristalino, composto predominantemente por granitos e gnaisses, possui baixa porosidade e permeabilidade. Isso significa que a água não circula facilmente: ela fica retida em fraturas por longos períodos, tempo suficiente para dissolver minerais e acumular sais.

O clima semiárido agrava o quadro. Com evapotranspiração potencial muito superior à precipitação média anual (em algumas áreas, a razão chega a 3:1), a água que infiltra carrega uma proporção maior de sais concentrados. Além disso, a prática comum de construir poços rasos, sem proteção sanitária adequada, favorece a entrada de sais por evaporação superficial. O resultado é uma combinação de fatores que transforma o acesso à água subterrânea num desafio técnico permanente para os sistemas de abastecimento rural.

Municípios como Canindé (CE), Cabrobó (PE) e Mossoró (RN) concentram registros históricos de poços com SDT acima de 5.000 mg/L. Em algumas localidades do Piauí e do Rio Grande do Norte, já foram medidos valores superiores a 15.000 mg/L em aquíferos fissurais rasos.

Para entender como a qualidade da água bruta influencia todo o processo de potabilização, vale consultar o artigo sobre como funciona a estação de tratamento de água (ETA), que detalha cada etapa do ciclo de tratamento convencional.

Tecnologias de remoção de salinidade: osmose inversa e eletrodiálise

A remoção de sais dissolvidos da água, processo chamado de dessalinização, é tecnicamente diferente de qualquer outro tipo de tratamento convencional. Coagulação, filtração e cloração não removem íons dissolvidos; para isso, são necessários processos de separação por membrana ou por troca iônica.

As duas tecnologias mais empregadas no Nordeste são a osmose inversa (OI) e a eletrodiálise reversa (EDR). A osmose inversa pressuriza a água salobra contra uma membrana semipermeável, forçando a passagem das moléculas de água e retendo os íons. A taxa de recuperação típica em sistemas de pequeno porte para água salobra fica entre 60% e 75%, ou seja, para cada 100 litros que entram no sistema, obtêm-se entre 60 e 75 litros de água tratada. O restante, chamado de concentrado ou rejeito, contém a maior parte dos sais removidos.

A eletrodiálise reversa usa corrente elétrica para migrar íons através de membranas seletivas, alternando periodicamente a polaridade para evitar incrustações. É menos sensível a turbidez e matéria orgânica do que a osmose inversa, o que a torna adequada para alguns contextos rurais com pré-tratamento limitado. A comparação entre as duas tecnologias envolve parâmetros técnicos e operacionais relevantes.

Parâmetro Osmose Inversa (OI) Eletrodiálise Reversa (EDR)
SDT máximo na entrada Até ~10.000 mg/L (salobra) Até ~12.000 mg/L
Taxa de recuperação típica 60% a 75% 80% a 90%
Sensibilidade à turbidez Alta (requer pré-filtração) Moderada
Custo de energia 0,3 a 1,0 kWh/m³ (salobra) 0,4 a 1,5 kWh/m³
Remoção de microrganismos Alta (barreira física) Baixa (exige desinfecção adicional)
Manutenção típica Troca periódica de membranas Limpeza química de membranas

No Programa Água Doce, a tecnologia predominante é a osmose inversa, por ser mais difundida, com componentes mais acessíveis e equipes de manutenção mais facilmente treinadas. Os sistemas instalados em escolas e associações comunitárias têm capacidade média de 1 a 3 m³/h, suficiente para abastecer de 500 a 1.500 pessoas por dia, a depender do consumo per capita adotado.

Gestão do rejeito: o problema que não pode ser ignorado

Um dos aspectos mais críticos na operação de dessalinizadores no semiárido é o destino do concentrado, ou rejeito. Esse fluxo contém todos os sais removidos da água bruta, numa concentração proporcional à taxa de recuperação do sistema. Em um dessalinizador com 70% de recuperação, o rejeito carrega cerca de três vezes mais sais do que a água de entrada.

O descarte inadequado do rejeito em solos rasos ou próximo a mananciais provoca salinização do solo e contaminação de aquíferos superficiais, comprometendo usos agrícolas e a sustentabilidade dos próprios poços que alimentam o sistema. A NBR não regulamenta especificamente o rejeito de dessalinizadores de pequeno porte, mas o CONAMA nº 430/2011 estabelece padrões para lançamento de efluentes que servem de referência.

Alternativas técnicas para o aproveitamento do rejeito incluem a criação de peixes resistentes à salinidade (como tilápia e camarão de água doce adaptado), o uso em sistemas de dessedentação animal e a evaporação em lagoas com aproveitamento de sal. O modelo de aproveitamento do rejeito em piscicultura tem mostrado resultados positivos em projetos conduzidos pela Embrapa Semiárido em municípios como Petrolina (PE) e Sobral (CE), integrando o dessalinizador a cadeias produtivas locais.

A etapa de desinfecção da água com cloro é indispensável após a osmose inversa, já que a membrana remove sais mas não garante ausência de contaminação biológica no permeado.

Monitoramento operacional e indicadores de desempenho

A operação eficiente de um sistema de remoção de salinidade da água depende de monitoramento contínuo de parâmetros-chave. A condutividade elétrica é o indicador mais prático no dia a dia, por permitir leituras rápidas na entrada, no permeado e no concentrado sem necessidade de laboratório. Um bom sistema de osmose inversa para água salobra deve produzir permeado com CE inferior a 200 µS/cm quando a entrada está entre 3.000 e 8.000 µS/cm.

Outros parâmetros que devem ser monitorados regularmente incluem a pressão de operação das membranas, a taxa de rejeição calculada e o índice de incrustação (Silt Density Index, SDI), que avalia a tendência de colmatação das membranas pelo material particulado. Quando o SDI da água de alimentação supera 5, o pré-tratamento precisa ser revisado, geralmente com adição de filtração por cartucho ou ajuste na coagulação prévia.

A qualidade microbiológica da água produzida também precisa de atenção. A osmose inversa remove bactérias e vírus com alta eficiência, mas o permeado é vulnerável a recontaminação durante o armazenamento e a distribuição. Por isso, a desinfecção com cloro após a membrana é obrigatória para garantir a potabilidade do produto final, conforme a Portaria GM/MS nº 888/2021.

Perguntas Frequentes

O que é salinidade na água?

Salinidade da água é a concentração de sais minerais dissolvidos, como cloretos, sulfatos e bicarbonatos. É medida principalmente como Sólidos Dissolvidos Totais (SDT) em mg/L ou por condutividade elétrica em µS/cm. Quanto maior a concentração de sais, maior a salinidade e menor a adequação da água para consumo humano e uso agrícola.

Qual a salinidade considerada potável na água?

A Portaria GM/MS nº 888/2021 estabelece o limite máximo de 1.000 mg/L de SDT para água potável no Brasil. A OMS adota o mesmo valor. Águas com SDT abaixo de 500 mg/L são consideradas de boa qualidade para consumo. Entre 500 mg/L e 1.000 mg/L, o gosto pode ser perceptível, mas dentro do limite legal. Acima de 1.000 mg/L, a água é imprópria para consumo sem tratamento.

Água dessalinizada faz mal?

Não, quando produzida e gerenciada corretamente. A água dessalinizada por osmose inversa ou eletrodiálise atende aos padrões de potabilidade estabelecidos pela legislação brasileira e pela OMS. O único cuidado relevante é garantir a desinfecção adequada após a membrana, pois o permeado pode ser recontaminado durante o armazenamento. Não há evidências científicas de que o consumo regular de água dessalinizada cause efeitos negativos à saúde humana.

Quais são os 4 tipos de água?

A classificação mais usual no contexto técnico divide a água em quatro grandes categorias com base na salinidade: água doce (SDT abaixo de 500 mg/L), água salobra (SDT entre 500 mg/L e 30.000 mg/L), água salgada ou marinha (SDT próximo a 35.000 mg/L) e água ultra-salgada (acima de 35.000 mg/L, como salmouras naturais). No Nordeste, a maior parte dos aquíferos fissurais fornece água salobra, que requer dessalinização antes do consumo humano.

Referências

  • Brasil. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 888, de 4 de maio de 2021. Estabelece os procedimentos e responsabilidades relativos ao controle e vigilância da qualidade da água para consumo humano. Brasília: MS, 2021.
  • CONAMA. Resolução nº 430, de 13 de maio de 2011. Dispõe sobre as condições e padrões de lançamento de efluentes. Brasília: Conselho Nacional do Meio Ambiente, 2011.
  • Ministério do Meio Ambiente. Programa Água Doce: documento base. Brasília: MMA, 2012. Disponível em: www.mma.gov.br.
  • Embrapa Semiárido. Aproveitamento do rejeito de dessalinizadores para criação de peixes. Petrolina: Embrapa, 2014. (Circular Técnica, 100).
  • World Health Organization. Guidelines for Drinking-water Quality. 4. ed. Geneva: WHO, 2017.

A salinidade da água no Nordeste não é um obstáculo intransponível, mas exige respostas técnicas adequadas à escala e à realidade local. Sistemas de osmose inversa bem dimensionados, operados por equipes treinadas e com gestão responsável do rejeito, têm transformado a realidade de comunidades que antes dependiam de água imprópria para consumo. O desafio operacional persiste, sobretudo na manutenção de membranas e na continuidade do fornecimento de energia, mas as ferramentas técnicas disponíveis são eficazes.

Para engenheiros e gestores que atuam no semiárido, o domínio dos parâmetros de controle, dos limites normativos e das alternativas tecnológicas disponíveis é o ponto de partida para garantir acesso à água de qualidade com sustentabilidade de longo prazo.

Fique por dentro

Receba as últimas notícias sobre água

Assine nossa newsletter e receba conteúdos exclusivos sobre sustentabilidade, tecnologia e o futuro dos recursos hídricos.

CompartilharWhatsAppLinkedIn